
RFID e o Passaporte Digital de Produto: uma nova fase da rastreabilidade
Entenda como o RFID pode conectar produtos a informações digitais e apoiar a evolução do Passaporte Digital de Produto.
RFID e o Passaporte Digital de Produto: uma nova fase da rastreabilidade
Com o avanço do Passaporte Digital de Produto na Europa, o RFID ganha espaço como tecnologia para conectar produtos físicos a informações digitais ao longo de todo o seu ciclo de vida.
A identificação de produtos está entrando em uma nova etapa.
Durante anos, tecnologias como códigos de barras e QR Codes foram utilizadas principalmente para identificar itens, acessar informações ou registrar movimentações. Agora, com a evolução da rastreabilidade digital, a identificação passa a ter uma função ainda mais ampla: conectar o produto físico a um conjunto estruturado de informações que pode acompanhá-lo durante toda a sua jornada.
Esse movimento ganhou força em 2026 com a implementação do Digital Product Passport (DPP), ou Passaporte Digital de Produto, na União Europeia.
Em julho deste ano, a Comissão Europeia colocou em operação o registro do DPP e publicou parte das normas técnicas que estruturam a infraestrutura do sistema. A iniciativa busca melhorar a transparência das cadeias de fornecimento, facilitar o acesso a informações sobre os produtos e apoiar processos relacionados à sustentabilidade, reparo, reutilização e reciclagem.
E é justamente nesse cenário que o RFID pode assumir um papel estratégico.
O que é o Passaporte Digital de Produto?
O DPP é uma estrutura digital que reúne informações relacionadas a determinado produto e permite que esses dados sejam associados a uma identificação única.
Na prática, isso significa que um produto pode carregar uma identidade digital capaz de conectar informações de diferentes etapas de sua trajetória: fabricação, distribuição, utilização, manutenção, reutilização e, eventualmente, reciclagem.
A regulamentação europeia estabelece que o Passaporte Digital deve estar conectado a um identificador único e persistente, utilizando um meio de identificação presente fisicamente no produto, em sua embalagem ou na documentação correspondente.
A proposta, portanto, vai muito além de simplesmente colocar um QR Code em uma embalagem.
O objetivo é criar uma infraestrutura de dados que permita que diferentes empresas, sistemas e participantes da cadeia possam acessar e utilizar informações de maneira estruturada e interoperável.
Onde o RFID entra nessa transformação?
O DPP pode utilizar diferentes tecnologias de identificação, incluindo códigos 2D, NFC e RFID.
O diferencial do UHF RFID, também conhecido como RAIN RFID, está principalmente na possibilidade de realizar a identificação por radiofrequência, sem depender de contato visual direto com o identificador.
Isso abre possibilidades importantes para ambientes industriais e logísticos.
Imagine, por exemplo, um centro de distribuição recebendo centenas de produtos simultaneamente. Em vez de identificar cada item individualmente, um sistema RFID pode realizar a leitura de diversos produtos de forma automática, dependendo da configuração da aplicação, dos leitores, das antenas e das condições do ambiente.
Essa capacidade torna o RFID especialmente interessante para processos em que velocidade, automação e identificação em volume são importantes.
RFID não substitui o DPP — ele pode ser uma das formas de acessá-lo
É importante fazer uma distinção.
O RFID não é o Passaporte Digital de Produto.
O RFID funciona como uma tecnologia de identificação e captura automática de dados que pode ser utilizada para conectar o produto físico às informações digitais armazenadas nos sistemas responsáveis pelo DPP.
Ou seja:
Essa arquitetura permite que o RFID seja utilizado como uma camada de ligação entre o mundo físico e o ambiente digital.
A regulamentação europeia prevê justamente a utilização de um meio de identificação conectado a um identificador único e estabelece requisitos relacionados à interoperabilidade, segurança e acessibilidade dos dados.
Da identificação à rastreabilidade durante todo o ciclo de vida
Uma das mudanças mais importantes trazidas pelo conceito de DPP é que a identificação deixa de estar relacionada apenas ao momento da venda ou da entrada no estoque.
O produto passa a ter uma identidade que pode acompanhar diferentes etapas de seu ciclo de vida.
Dependendo do setor e das informações exigidas, podem ser associados dados como:
identificação individual do produto;
fabricante e informações de origem;
características técnicas;
informações de manutenção;
histórico de utilização;
dados relacionados à durabilidade;
informações para reparo;
possibilidade de reutilização;
informações para reciclagem;
dados relacionados à sustentabilidade.
A própria Comissão Europeia destaca que o DPP foi concebido para melhorar a rastreabilidade ao longo da cadeia de valor e apoiar atividades como reparo, reutilização e reciclagem.
Por que o UHF RFID é interessante nesse cenário?
Em ambientes industriais, a vantagem do RFID está principalmente na automação da captura de informações.
Enquanto um código visual normalmente precisa estar orientado para o leitor ou câmera, o UHF RFID utiliza radiofrequência e pode realizar leituras sem linha de visada.
Além disso, múltiplos produtos identificados podem ser capturados simultaneamente.
Essa característica pode ser aplicada em diferentes pontos da cadeia:
Na fabricação
Produtos, componentes, ferramentas e materiais podem receber uma identificação única e ser acompanhados durante os processos produtivos.
Na logística
Leitores instalados em portais, docas e pontos estratégicos podem automatizar registros de entrada e saída.
No estoque
A tecnologia pode contribuir para inventários mais rápidos e para maior visibilidade sobre a movimentação dos itens.
Na distribuição
A identificação automática permite associar movimentações físicas aos registros digitais dos produtos.
Na manutenção
Produtos e ativos podem ter seu histórico relacionado a uma identificação única, facilitando o acesso às informações correspondentes.
Na economia circular
Em processos de reutilização, recuperação e reciclagem, a identificação automática pode facilitar a associação do item às informações necessárias para sua destinação.
O DPP também muda a discussão sobre RFID
Durante muito tempo, projetos de RFID foram associados principalmente a perguntas como:
“Quantas tags serão lidas?”
“Qual é a distância de leitura?”
“Qual leitor devo utilizar?”
Essas questões continuam sendo importantes.
Mas o avanço do DPP mostra que existe uma camada ainda mais estratégica: o que será feito com a informação depois que o produto for identificado?
Uma leitura RFID isolada gera um evento.
Quando esse evento está conectado a sistemas corporativos, bancos de dados e processos de negócio, ele pode se transformar em informação operacional.
É essa integração que permite sair de uma simples identificação para uma estrutura de rastreabilidade digital.
O desafio está na integração
Um dos pontos centrais do avanço do DPP é a necessidade de interoperabilidade.
A Comissão Europeia vem estruturando padrões relacionados a identificadores únicos, meios de identificação, troca de dados, armazenamento, APIs e interoperabilidade entre sistemas.
Isso significa que um projeto de identificação não pode ser pensado apenas como uma escolha de tag ou leitor.
É necessário considerar:
tecnologia de identificação;
arquitetura RFID;
leitores e antenas;
identificadores únicos;
banco de dados;
APIs;
sistemas ERP, WMS ou MES;
segurança das informações;
regras de acesso;
integração entre diferentes participantes da cadeia.
A tecnologia precisa fazer parte de uma arquitetura maior.
2027 será um marco importante
O avanço do DPP não acontece de uma única vez.
A implementação será progressiva, começando por determinados grupos de produtos.
Entre os próximos marcos está 18 de fevereiro de 2027, quando o Passaporte Digital de Produto se tornará obrigatório para determinadas categorias de baterias, incluindo baterias de veículos elétricos, determinados meios de transporte leves e baterias industriais.
A partir daí, outros setores deverão entrar gradualmente nesse processo.
Para empresas que atuam com fabricação, logística, distribuição e tecnologia de identificação, isso significa que a preparação precisa começar antes da obrigatoriedade chegar a cada categoria.
O futuro da RFID está cada vez mais conectado aos dados
O avanço do Passaporte Digital de Produto mostra uma transformação importante no papel da identificação automática.
RFID deixa de ser visto apenas como uma tecnologia para “ler uma tag”.
Ele pode atuar como uma ponte entre produto, processo e informação.
Ao associar uma identidade única a um produto e conectá-la aos sistemas digitais da empresa, a tecnologia pode contribuir para uma cadeia mais rastreável, automatizada e preparada para novos modelos de gestão do ciclo de vida.
Para a indústria, logística, varejo e demais setores que trabalham com grandes volumes de itens físicos, essa evolução reforça uma tendência que já está em andamento: cada vez mais, o produto físico terá uma identidade digital própria.
E, nesse cenário, tecnologias como o UHF RFID podem desempenhar um papel importante na captura automática dessa identidade ao longo da cadeia.
RFID como infraestrutura para uma cadeia mais inteligente
O Passaporte Digital de Produto ainda está em processo de implementação e diversos requisitos específicos continuarão sendo definidos para diferentes categorias de produtos. A própria Comissão Europeia indica que a regulamentação será desenvolvida progressivamente por grupos de produtos.
Mas a direção já está clara: identificação única, dados estruturados, interoperabilidade e rastreabilidade ao longo do ciclo de vida.
Para as empresas, isso representa uma oportunidade de começar a olhar para o RFID não apenas como uma ferramenta de inventário, mas como parte de uma infraestrutura de dados capaz de conectar o mundo físico aos sistemas digitais.
A evolução da RFID passa, cada vez mais, pela qualidade da informação que ela consegue gerar e pela capacidade de transformar essa informação em decisões.
A identificação é apenas o começo. O verdadeiro valor está nos dados que vêm depois dela.
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